A técnica deixa-nos sem gestos
Do fogão à torradeira, do moinho ao botão, do botão à carícia num vidro: um inventário de gestos perdidos, antes que também a memória deles se digitalize.

Lembro-me de o Gonçalo M. Tavares falar e escrever de como a técnica, a tecnologia, está a deixar-nos com menos gestos, e, por outro lado, usamos os mesmos gestos para coisas digitais muito diferentes.1 Antes, por exemplo, quando jogava consola com os meus amigos ou com o meu irmão, estávamos todos na mesma sala, especados diante do mesmo ecrã, ligados por fios a um aparelho. A eliminação dos fios mudou a experiência. As ligações tornaram-se invisíveis (dou por mim a querer que existisse em português uma palavra como a espanhola inalámbrica. Caso a tivéssemos, diria que se tinham tornado “relações inalâmbricas”). Com o avançar da tecnologia, com o aumento da capacidade e da velocidade, o que se estará a perder? O que nunca se chegou a ganhar, para quem não teve experiência contrastante?
O mesmo escritor, aliás, escreveu já sobre isto. Basta lembrar o título de um dos seus livros: Aprender a Rezar na Era da Técnica. Poderá o leitor perceber que foi a partir desse título que o deste singelo ensaio foi engendrado.
Hoje, no sábado em que estou a escrever — curiosamente, porque as primeiras palavras deste texto foram escritas há duas semanas —, a Inês disse-me, enquanto conversávamos ainda na cama, antes de acordarmos para os afazeres do fim-de-semana, que era uma pena os miúdos de hoje (creio que se referia aos nossos, mas não apenas) não terem pósteres de ídolos no quarto. Assenti e retorqui dizendo que os ídolos hodiernos, se existirem, vivem no mundo digital, têm alcunhas esquisitas e denominam-se usando palavras em inglês que terminam em “ers” (youtubers, gamers, influencers).
Não me tornarei mais um aborrecido escritor que denuncia “o digital” como a semente de todo o mal (frase intencionalmente pirosa, e que rima, ainda por cima). Os gestos começaram a mudar com a mecânica. Ainda assim, até à ascensão das tecnologias correntes, os utensílios e ferramentas exigiam manipulação. Não eliminavam os gestos, geravam novos. Terá sido a electricidade a primeira grande assassina dos gestos?
Por exemplo, antes, para torrar pão, tínhamos de acender o fogão, dispor as fatias do pão sobre a placa metálica e, esperando acertar no tempo, voltá-las quando o nosso gosto o pedisse. Implicava, contudo, uma vigilância mais ou menos atenta, para aumentar a nossa precisão. Agora, não importando o formato, empurramos uma alavanca depois de termos rodado um manípulo para programar o tempo, usando uma escala que não o mede: julgamos estar a programar quão torrada fica uma fatia mas, na verdade, estamos a programar quanto tempo temos de esperar por que salte. Neste caso, a torradeira não eliminou gestos, apenas os modificou, simplificando-os. Além disso, a espera agora é espaço para outras actividades, dado que a pequena máquina avisa com um estrondo mecânico quando termina a sua função.
Há outros aparelhos eléctricos que elidiram um uso mais vigoroso do corpo. Por exemplo, o moinho eléctrico de café eliminou o movimento rotativo que implicava a coordenação entre falangetas, falanges, punhos, antebraços, bíceps, ombros, olhos, alguns abdominais. Agora, pressionamos um botão. Esse talvez tenha sido o maior exterminador de gestos da História.
No lugar de muitos e antigos gestos temos agora botões. Um botão põe-nos a loiça a lavar, outro a roupa, outro faz-nos o café, aquece-nos a comida, liga-nos as luzes, torna o ar mais quente ou mais frio.
E, no entanto, o botão ainda era “coisa”. Tinha curso, resistência, um clique que confirmava a decisão. O ecrã táctil aposentou-o. O que resta é um dedo a deslizar sobre vidro — e é sempre o mesmo deslizar, sirva ele para pagar um jantar, comprar sapatos, recusar uma pessoa, assinar um documento ou calar as notícias. Já nem carregamos: acariciamos. Aliás, já nem as carícias são necessárias. O telefone desbloqueia-se com um olhar, o pagamento faz-se com uma aproximação. Do gesto pleno passámos ao botão, do botão ao toque, do toque ao gesto nenhum.2
Façamos um pequeno inventário, antes que também a memória dos gestos se digitalize. Marcar um número de telefone era rodar um disco e esperar que ele regressasse, oxalá nos calhassem poucos noves e zeros. Dar corda ao relógio era um compromisso diário com o próprio tempo: quem se esquecia do gesto ficava, literalmente, sem horas. Rebobinar uma cassete com a ajuda de um lápis poupava as pilhas do leitor e, na falta dele, dava ao dedo indicador uma função de eixo. Baixava-se o vidro do carro dando à manivela. Curiosamente, ainda hoje pedimos a alguém que baixe o vidro imitando uma manivela que os carros já não têm. Já nem giramos os pulsos para pôr o motor de um carro a funcionar; carregamos num botão ou, nos mais recentes modelos, basta carregar no acelerador. E gravamos documentos carregando no ícone de uma disquete que os miúdos nunca viram. Os gestos morrem, tal como os objectos, mas deixam fósseis.
Os pósteres de que a Inês sentia falta também eram feitos de gestos: recortar a página da revista com cuidado para não levar metade do ídolo, pedir fita-cola emprestada, subir à cadeira, decidir a parede. E havia a manutenção — o canto que teimava em descolar. Seguir hoje um influencer pede um toque num “botão” imaterial, escondido atrás de um qualquer vidro. O mesmo toque que serve para tudo o resto.
Deixem-me demorar-me um pouco mais. É de propósito.
Sintonizar um rádio pedia um dedo e um ouvido a trabalharem juntos. Rodava-se o botão devagar, atravessava-se uma chuva de estática, aparecia um resquício de voz, passava-se por ela, recuava-se um milímetro — e ali, entre dois chiados, ficava a estação. Quem rodasse depressa não chegava a lado nenhum.
Fotografar era apostar às cegas. Um rolo tinha vinte e quatro ou trinta e seis disparos e nenhum ecrã onde conferir o resultado; escolhia-se o momento com a avareza de quem sabe que cada fotografia custa dinheiro. Depois levava-se o rolo à loja e esperava-se — dias — para descobrir que em metade estávamos de olhos fechados, e, nas fotografias tiradas com luz que cega, ficávamos a parecer vampiros. Guardavam-se essas também. Tinham custado o mesmo.
Procurar uma palavra num dicionário era uma pequena viagem com escalas: percorria-se o alfabeto, afinava-se pela segunda letra, depois pela terceira, e pelo caminho tropeçava-se em palavras que não se procuravam mas que passavam de desconhecidas a amigas. O dicionário ensinava por acidente. O corrector ortográfico ou o chatbot de serviço nunca nos ensinou nada que não lhe tivéssemos perguntado.
Ouvir um disco inteiro incluía levantarmo-nos a meio: o lado A acabava e o lado B não começava sozinho. Era preciso erguer o braço da agulha, virar o disco, pousá-la de novo sem a deixar cair.
E, já que comecei este texto nas consolas: quando um jogo não pegava, tirava-se o cartucho e soprava-se-lhe para dentro. Ninguém sabia porquê. Toda a gente o fazia. Funcionava as vezes suficientes para nunca deixarmos de acreditar.
Paro por aqui — não por falta de exemplos, mas porque desconfio que o leitor começa a dar sinais de impaciência. Se estas descrições o aborreceram, considero duas hipóteses, plausíveis e não mutuamente exclusivas. A primeira: a minha escrita não estar à altura dos gestos que descreve — hipótese que a honestidade me obriga a deixar em cima da mesa. A segunda: a de que ler algo que nos faz demorar se tenha tornado tão custoso como esperar. Se quatro linhas sobre o rodar de um botão de rádio lhe pareceram um exagero, experimente lembrar-se de quanto tempo aguentava, nessa altura, à procura de uma estação. O aborrecimento que talvez tenha sentido não é necessariamente culpa minha (embora possa ser, insisto): pode ser o músculo, atrofiado, a acusar a retoma do exercício.
Reparo agora, relendo o inventário, em algo que não tinha considerado ao escrevê-lo: em quase todos estes gestos residia uma espera. O disco que regressava, a torrada que não saltava, o café que se moía à força de rotações. O gesto ocupava as mãos e deixava a cabeça solta — e a cabeça solta, sem nada que a entretivesse, aborrecia-se. A técnica, ao eliminar os gestos, eliminou as esperas. Quis escrever que, ao eliminar as esperas, nos deixou expostos ao tédio — mas é o contrário. Protegeu-nos dele. Nunca mais ninguém precisou de se aborrecer: há sempre um vidro à distância de uma carícia. Numa cultura obcecada com a produtividade, isto regista-se como lucro — tempo recuperado, fricção removida.3 Desconfio de lucros assim. O tédio que os gestos continham era o de baixa intensidade, o suportável, aquele em que a cabeça vagueia porque as mãos estão ocupadas. Era nele que se pensava sem se dar por isso.
Amanhã de manhã hei-de carregar em vários botões. Contudo, percebo que não é por acaso que mantive uma máquina de café manual. Sim, os grãos de café são moídos a toque de botão. Sim, a máquina verte o castanho líquido depois de eu pressionar outro. Mas, para os botões seguirem os seus desígnios, tenho de recolher os grãos tornados pó com uma colher própria; tenho de calcar o monte resultante com um calcador que comprei de propósito, com cabo de madeira; tenho de encontrar o encaixe certo do porta-filtro e rodá-lo até trancar, percebendo, pela resistência que oferece, se a quantidade de café que escolhi é a certa para o meu gosto. O hábito, entretanto, empurra tudo isto para o automatismo — as mãos depressa aprendem a passar sem nós. Contrario-o de propósito: demoro-me, para que o gesto continue a pedir-me atenção. Depois, enquanto o café arrefece ligeiramente, deito fora a borra e limpo tudo o que sujei com água, seco com um pano, recolho os restos de pó que deixei espalhados com uma pequena vassoura de mão4, deixando tudo pronto para o próximo expresso.
Uma máquina automática far-me-ia tudo isto em vinte e três segundos. Porventura, até gastaria menos água. Mas não é eficiência que procuro neste ritual matutino. Nem a optimização do tempo, para poder ir despachando e-mails ou lendo as notícias da manhã. É uma teimosia analógica e artesanal, antes do resto do meu dia, cada vez mais, e mais, digital.
Tavares trabalha a relação entre corpo, gesto e técnica no Atlas do Corpo e da Imaginação (2013).
Giorgio Agamben, em «Notas sobre o gesto» (Meios sem Fim, 1996), datou o início desta perda muito antes de qualquer ecrã: no final do século XIX, escreveu, a burguesia ocidental tinha já perdido definitivamente os seus gestos. A técnica não inaugurou o processo; encarregou-se de o concluir.
Sobre o tédio — a sua demonização e o que se perde quando o tentamos exterminar — escrevi já em «boredom as blasphemy» (Maio de 2025, em inglês) e no interlúdio «on boredom (or what goes through your head on a 10-hour flight, without sleeping)» (Julho de 2025, em inglês). Não repito aqui o argumento; fica a remissão.
Resmunguei e desdenhei desta pequena vassoura quando chegou à nossa casa, sem que eu a tivesse convidado. Sirvam agora estas palavras de acto de contrição para quem de direito: adoptei-a, afectuosamente.


