Breve reflexão sobre «o que é uma boa vida»
Quinze pensadores e filósofos alinhados ante uma plateia. Na manhã seguinte, um cubículo pouco recomendável.

Participei recentemente num painel com outros catorze pensadores e filósofos. O tema: o que significa viver uma boa vida, num mundo mais-que-humano. Há muito para pensar e escrever sobre isto. Muito se escreveu já, e hoje qualquer influenciador de redes sociais tem a sua receita. Este texto não é isso — uma platitude prescritiva ou, pior, treta (continuo a preferir a palavra inglesa “bullshit”). Também não é uma reflexão estendida. É a condensada, em que procuro repetir por escrito a minha breve intervenção no painel.
Eis, então, uma ideia: uma boa vida é aquela em que nunca se saberá a resposta à pergunta «o que é uma boa vida?» — em que se compreende que tal pergunta não tem resposta absoluta, universal —, mas que, apesar disso, continua a interessar, até a entusiasmar; uma vida em que tal paradoxo é suportado por um conforto suficiente para se viver, assim, sem um sofrimento incapacitante para o próprio, e sem chatear os outros em demasia por isso.

No dia a seguir, na encontro de despedida da conferência que acolheu tal painel, pensei noutra ideia, enquanto estava no cubículo da casa de banho do terraço onde acontecia a festa.
Eis a outra ideia: não estaremos mais perto de saber o que é uma boa vida enquanto, numa conferência de pessoas (pretensamente) educadas, evoluídas, e que dizem querer um mundo melhor, continuarmos a deixar o autoclismo por puxar e o chão do cubículo alagado, ensopado em papel e mais coisas que não vale a pena descrever.
Seja o que for uma boa vida, não pode ser uma cuja resposta ignore as suas consequências nas vidas dos outros.
Versão portuguesa de “interlude: the good life, briefly”, publicado em the useful uselessness a 16 de Maio de 2026.


