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Há um homem que percorre a minha rua quase todas as manhãs. Só embate no que não pertence ao passeio. Hoje, alguém embateu nele.
Há um homem com quem me cruzo quase todas as semanas. Encontro-o na minha rua, orientado sempre no mesmo sentido, o da gravidade. Sempre que nos cruzamos é entre as oito e as oito e meia da manhã — essa é a fiabilidade dos transportes públicos portugueses, deduzo eu: há que dar uma tolerância de trinta minutos.
Ele caminha com o passo certo, previsível, como se seguisse um metrónomo, como se marcasse o compasso com os passos; sempre decidido. É claro para mim que este homem sabe onde está e para onde vai.
Já o vi várias vezes a ir contra diferentes objectos. Caixotes do lixo, uma trotinete deixada fora de sítio — das que conquistaram as cidades do mundo, como uma praga bíblica —, outras pessoas. Tais situações acontecem quando a sua bengala — que, qual radar, perscruta o caminho em frente num ritmo que alterna com o dos passos —, por uma infeliz coincidência, oscila para o lado contrário ao objecto que está fora do seu sítio. Só o vi embater em objectos que estão na rua mas não lhe pertencem.
Não o vejo todos os dias, pois nem sempre saio de casa entre as oito e as oito e meia da manhã. Mas imagino que ele por aqui passa todos os dias úteis. Convenço-me de que sei de onde vem, pois a rua começa num largo conhecido onde existe uma estação de metro e várias paragens de autocarros. Acredito que sei para onde vai, pois algures perto do fim da rua existe uma associação para pessoas cegas.
Nunca o vi interagir com alguém, nem pedir ajuda, nem desculpa, nem licença. Já o ajudei uma vez, depois de uma queda provocada por uma dessas trotinetes horríveis. Não me agradeceu com palavras; tocou-me no braço e o seu ligeiro aperto disse «obrigado». Também já afastei trotinetes, caixotes do lixo e caixas de cartão do meio do passeio, a pensar nele, mesmo já fora do seu horário.
Muitas vezes fico a observar o que fazem as pessoas com quem se cruza, por quem passa. Já vi pessoas a saltar para o lado, como se estivessem a fugir de uma planta com espinhos; já vi pessoas a oferecer ajuda, mas nunca o vi a aceitar, nem para atravessar a rua que cruza a nossa; já vi pessoas a comentar, e a ignorar.
Hoje cruzei-me com este homem. Decidido, rápido, previsível, como sempre, passou por mim e pela minha filha mais nova, quase no início do nosso curto trajecto entre a nossa casa e a escola. Como sempre, fiquei a admirá-lo.
Da rua da escola, a tal que termina na nossa, uma mulher equipada para o padel, qual jogadora de ténis urbana, dobrou a esquina. Como tantas outras pessoas, trazia as duas mãos dobradas a quarenta e cinco graus, juntas, agarrando uma tábua votiva acesa — devoção técnica aos deuses Whats e App, ou Tik e Tok. O homem, cego, agarrou a bengala, encostou-a ao peito e parou. A mulher, cega, seguiu e esbarrou no homem.
Versão portuguesa de «interlude: seeing», publicado em the useful uselessness a 6 de Junho de 2026: https://useful-uselessness.com/seeing/.


