Sustentabilidade relacional
A pegada que deixamos uns nos outros
.Li o Abrandar ou Morrer, do Timothée Parrique — um desmantelamento rigoroso do mito do crescimento e uma defesa convincente da economia do decrescimento.1 O livro é minucioso: sobre o desacoplamento entre crescimento e emissões, sobre a cegueira do PIB em relação ao bem-estar, sobre as condições políticas da transição. E, no entanto, enquanto lia, ia-me lembrando de que tinha escrito sobre outro ângulo da sustentabilidade, há anos, e que nunca mais lhe pegara.
Parrique escreve sobre pegadas ecológicas, sobre economias extractivas, sobre o que tiramos ao planeta sem repor. Há outra ecologia que habitamos, feita de relações, de conversas, de encontros — e também nela deixamos rasto. Que pegada deixamos nas pessoas?
A pergunta não está ausente do pensamento do decrescimento. Parrique menciona o bem-estar, a convivialidade, a qualidade de vida que poderá emergir de produzir e consumir menos. O «hedonismo alternativo» de Kate Soper — encontrar prazer na lentidão, no suficiente em vez do sempre-mais — aponta numa direcção semelhante.2 Mas estas dimensões permanecem secundárias face à análise económica e ecológica, como acontece na maior parte do discurso sobre sustentabilidade a que tenho acesso. A dimensão relacional — o modo como afectamos a vida interior uns dos outros, o resíduo que deixamos nas pessoas em que tocamos — fica na periferia.
Pergunto-me se o alheamento que sentimos face a estas questões globais não virá daí. É essa dúvida que quero trazer para o centro.
para lá do legado
Não me refiro ao legado no sentido convencional: os feitos recordados, a obra que nos sobrevive, as histórias que pertencem a um panegírico. Refiro-me a algo mais íntimo e menos visível: o resíduo que deixamos na vida interior das pessoas com quem nos cruzamos. A forma como alguém se sente consigo próprio depois de anos, ou minutos, de nos conhecer. Os padrões de pensamento ou de sentimento que transmitimos, quase sempre sem o saber. A qualidade da presença — ou da ausência — que oferecemos.
Lembro-me de, na adolescência, alguém me perguntar se acreditava na vida depois da morte. Recordo-me de responder que sim — se por vida considerássemos a memória que deixamos nas pessoas que nos sobrevivem.
Os pais e as mães pensam nisto, por vezes de forma obsessiva. A teoria psicológica deixou no senso comum a ideia vaga mas persistente de que o que fazemos e deixamos por fazer marca a estrutura psicológica dos nossos filhos. Os estudos confirmam o que a intuição já sabe: que o desamor, a violência e a negligência têm efeitos nas fundações de qualquer pessoa. Mas esta transmissão não exige a condição irreversível da parentalidade. Acontece entre amantes, colegas, amigos, até entre estranhos em encontros repetidos. Onde houver relação, há transmissão.
como nos marcamos uns aos outros
O psicanalista Wilfred Bion deixou-nos uma maneira de pensar este fenómeno que me parece mais útil do que a maioria.3 Descreveu como, na relação mais precoce entre mãe e bebé, acontece algo que estabelece um molde para todas as relações subsequentes. O bebé vive sensações cruas, por processar — fome, desconforto, um terror sem nome — a que ainda não consegue dar sentido. A mãe, ou quem desempenhe essa função, recebe esses estados, contém-nos, processa-os através do que Bion chamou rêverie, e devolve-os numa forma que o bebé consegue tolerar.
É isto que acontece — ou falha — nas relações ao longo da vida. Quando alguém nos traz a sua angústia, a sua confusão, a sua experiência por digerir, podemos fazer várias coisas com ela. Podemos recebê-la, aguentá-la, ajudar a transformá-la em algo mais tolerável. Podemos recusá-la, desviá-la, devolvê-la amplificada. Ou podemos ficar de tal forma submersos que passamos ao outro, em troca, o nosso próprio material por processar.
O que não se consegue metabolizar passa-se adiante.
É este o mecanismo da transmissão transgeracional.4 A ansiedade que uma avó não conseguiu processar torna-se a depressão com que a filha vive, torna-se a dependência que o neto desenvolve. Não apenas pela genética, mas pela qualidade do relacionamento: pelo que foi contido e pelo que foi expelido, pelo que foi transformado e pelo que foi passado em cru.
A série Succession oferece uma ilustração vívida, ainda que ficcional, deste mecanismo. O que se transmite na família Roy não é simplesmente «toxicidade» — a palavra tornou-se vaga de mais para significar alguma coisa — mas um modelo relacional específico: o amor é transaccional, o valor próprio tem de ser perpetuamente conquistado pelo desempenho, a intimidade é uma arma para usar estrategicamente, a vulnerabilidade é uma fraqueza para explorar. Cada filho absorve este modelo e replica-o, umas vezes invertendo-o (a rebeldia que continua definida por aquilo a que se opõe), outras amplificando-o. O pai não consegue conter o seu próprio terror da insignificância; passa-o aos filhos como uma exigência que nunca poderão satisfazer. Estes, por sua vez, não conseguem metabolizar essa exigência impossível; transmitem-na às suas relações, aos seus empregados e, eventualmente, aos seus filhos. A corrente continua até alguém — se alguém — desenvolver a capacidade de processar em vez de transmitir.
a invisibilidade do dano relacional
Reparar nisto exige um tipo de atenção para o qual a nossa cultura está mal preparada. As mesmas forças que dificultam a sustentabilidade ecológica — o curto-prazismo, a busca da gratificação imediata, o hábito de externalizar custos — operam na vida relacional.
Repare-se em como falamos das relações como coisas que «temos» e não como processos que sustentamos; na facilidade com que descartamos ligações que se tornam inconvenientes; na crença de que as pessoas são substituíveis; na fantasia de que podemos sair de uma relação sem deixar resto. E na economia da atenção que fragmenta a presença, tornando cada vez mais raro o trabalho lento do encontro.5
Há também uma cegueira conveniente em acção. O dano ecológico é cada vez mais visível: glaciares a derreter, florestas a arder, oceanos cheios de plástico. Mas o dano relacional esconde-se melhor. A pessoa que diminuímos não aparece em métrica nenhuma. O potencial que atrofiámos, a confiança que corroemos, a ansiedade que transmitimos — nada disto deixa rasto visível no mundo; deixa-o apenas na vida interior dos outros. E essas vidas interiores são privadas, protegidas pelas mesmas fronteiras que tornam possível a intimidade.
Esta invisibilidade serve-nos. Permite-nos andar pelo mundo sem confrontar a acumulação dos nossos efeitos relacionais. O colega que teme as manhãs de segunda-feira por causa do nosso estilo de gestão, o amigo que se sente ligeiramente mais pequeno depois de cada interacção, o companheiro que aprendeu a esconder partes de si para evitar a nossa reacção: estas consequências permanecem abstractas, negáveis, problema de outro. Externalizamos os custos dos nossos padrões relacionais tal como as indústrias externalizam os custos da poluição.
Não estou a propor um programa. Os programas são parte do problema: a crença de que realidades humanas complexas podem ser tratadas com metodologias, frameworks, processos em cinco passos. O que sugiro é mais comezinho: uma pergunta que talvez valha a pena fazer durar um pouco mais, sem pressa de lhe responder.
não esgotar
O que significaria pensarmo-nos como sustentáveis, ou insustentáveis, nas nossas relações?
A metáfora ecológica, levada mais longe, sugere um caminho desconfortável. A sustentabilidade não é, antes de mais, deixar as coisas melhores do que as encontrámos. Esse é um critério mais elevado, e talvez irrealista. A sustentabilidade é não esgotar. Não extrair mais do que pode ser reposto. Não deixar os sistemas menos capazes de sustentar vida do que estavam antes.
Aplicado às relações, isto reformula a pergunta. Não é «como posso ter o máximo impacto positivo nos outros?» — essa é a linguagem da influência, da intervenção, do complexo de salvador. É mais próxima de: estou a deixar as pessoas esgotadas ou repostas pelos encontros comigo?
É aqui que o hedonismo alternativo de Soper se torna relevante além da economia. Soper defende que a visão consumista convencional da boa vida se tornou auto-destrutiva: cria stresse, degradação ambiental e retornos decrescentes de satisfação efectiva. Propõe, em alternativa, um prazer encontrado na suficiência e não na maximização. A mesma lógica aplica-se às relações. O modelo extractivo — tirar o que precisamos, maximizar o que obtemos dos outros, tratar as ligações como recursos a optimizar — esgota todos os envolvidos, incluindo nós próprios. Um hedonismo alternativo relacional talvez encontre prazer não na acumulação de ligações nem na maximização da influência, mas na qualidade da presença que oferecemos e recebemos.
Esta pergunta é diferente da de saber se as pessoas gostam de nós, se nos acham impressionantes, se falariam bem de nós. Alguém pode ser encantador, admirado, bem-sucedido em todas as medidas convencionais, e ainda assim deixar atrás de si um rasto de pessoas esgotadas. O esgotamento acontece devagar, invisivelmente, de maneiras que os próprios esgotados talvez só reconheçam muito mais tarde, se chegarem a conseguir fazê-lo.
A pergunta também difere da de sermos «simpáticos» ou «bons» em qualquer sentido simples. A honestidade verdadeira pode ser difícil de receber. O cuidado real exige por vezes dizer coisas que as pessoas não querem ouvir. Qualquer relação saudável implica frustração, desconforto, a recusa em gratificar certos desejos, de imediato ou de todo. Mas, quando resulta, deixa as pessoas com mais capacidade de pensar, de sentir e de se relacionar do que tinham antes. O desconforto serve algo maior.
O que distingue a dificuldade sustentável da dificuldade que esgota? Julgo que tem que ver com a capacidade de contenção — no sentido de ser continente, não de ser contido. Quando trazemos a dificuldade de uma forma que inclui a capacidade do outro para a suportar, quando metabolizamos as nossas próprias reacções o suficiente para oferecer algo com que o outro possa trabalhar em vez de algo que o submerge, quando permanecemos presentes no rescaldo em vez de largar a bomba e desaparecer — é sustentável, mesmo quando é difícil. Quando despejamos material por processar, quando usamos os outros como receptáculos do que não conseguimos encarar em nós, quando nos relacionamos com as pessoas como funções e não como sujeitos com vida interior própria — isto esgota, mesmo quando à superfície parece civilizado.6
a pergunta organizacional
As empresas medem cada vez mais a sua pegada ambiental. Mas que pegada deixam nas pessoas que lá trabalham?
O que fazem anos de emprego ao sentido de possibilidade de alguém? À sua capacidade de confiar? À sua relação com a própria criatividade, ambição, descanso? Estas perguntas não aparecem nos relatórios ESG. As métricas concentram-se em percentagens de diversidade, horas de formação, índices de satisfação — aproximações que podem ou não ter alguma relação com o facto de as pessoas estarem a ser esgotadas ou repostas.7
Trabalhei com organizações de excelentes políticas ambientais e culturas relacionais extractivas. A reciclagem é impecável; as pessoas estão exaustas.
E vi o contrário: lugares com credenciais ambientais modestas, mas com um cuidado real pela vida interior de quem lá trabalha. A diferença não está em ser «simpático» nem em evitar o conflito. Está em saber se a organização funciona como um continente que transforma o que a atravessa, ou como um sistema que se limita a processar pessoas — gastando-as e substituindo-as quando se esgotam. A linguagem dos «recursos humanos» já nos diz qual das metáforas domina.
o que fica
Vamos deixar marcas. Resta saber se virão a ser parte da capacidade dos outros para viverem e se relacionarem, ou fardos passados adiante.
A maior parte de nós, examinando honestamente a sua história, encontrará ambas as coisas: momentos em que oferecemos algo que serviu mesmo de continente, e momentos em que despejámos o que não conseguíamos suportar. O objectivo não é uma folha limpa, mas aumentar a proporção, devagar, com o tempo. Perguntar, de vez em quando, o que estamos a deixar atrás de nós.
Tendemos a imaginar o legado como feitos, como coisas construídas que nos sobrevivem. Mas há outro legado: o efeito acumulado de todo o nosso relacionar.
Esse não aparece nos obituários. Propaga-se em ondas que nunca veremos, nunca saberemos, e pelas quais nunca seremos louvados nem culpados.
Timothée Parrique, Abrandar ou Morrer: A economia do decrescimento (Zigurate, 2025; tradução de José Mário Silva). Publicado originalmente em francês como Ralentir ou périr: L'économie de la décroissance (Seuil, 2022). Parrique é economista ecológico na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade de Lausana, e o seu trabalho tornou-se referência nos debates sobre o decrescimento.
Kate Soper, Post-Growth Living: For an Alternative Hedonism (Verso, 2020). Trabalhei o enquadramento de Soper em «Suficientemente bons: desafiando a tirania da excelência», onde o conceito de hedonismo alternativo ajuda a reformular a nossa relação com a produtividade e o consumo
O trabalho de Bion sobre o par «continente/conteúdo» e sobre a transformação dos «elementos beta» (experiência em bruto) em «elementos alfa» (material disponível para o pensamento) atravessa a sua obra, em particular Learning from Experience (1962) e Elements of Psychoanalysis (1963). Para quem não estiver familiarizado com a sua prosa densa, recomendo começar pelos comentários mais acessíveis de Thomas Ogden ou de James Grotstein.
Uso «transgeracional» e não «intergeracional» de propósito. Na literatura psicanalítica, o intergeracional é o que passa de uma geração para a seguinte já sob alguma forma pensada e dizível; o transgeracional é o que atravessa as gerações precisamente por não ter sido elaborado — o que salta uma geração porque ninguém conseguiu pensá-lo. É deste segundo que aqui se trata
Explorei a fragmentação da atenção em «Atentemos ao que se presta atenção e aprendamos a distrair-nos melhor» e, em inglês, em "On the Beauty of Distraction" — embora aí me interessasse mais o que a distracção pode oferecer do que o que a presença concentrada exige.
Bion distinguiu entre o continente que transforma o que recebe e o que se limita a armazenar ou a expelir. O mesmo aparente acto de escuta pode servir qualquer das funções — e é por isso que as técnicas e as aparências nos dizem tão pouco sobre a qualidade efectiva do relacionamento
Explorei o fosso entre a intenção organizacional e a realidade relacional em "The Conversations of Lovers and Teams" e "Beyond 'Soft Skills'", ambos em inglês; sobre as ditas competências «moles», ver também «Das competências moles».
Versão portuguesa de “relational sustainability: the footprint we leave in people”, publicado em the useful uselessness a 31 de Janeiro de 2026: https://useful-uselessness.com/relational-sustainability/
O texto pertence a uma sequência de três, publicada no Way Beyond Way: «Uma perspectiva sobre sustentabilidade»(Junho de 2023), «Sustentabilidade relacional» (este) e «Sobre o greenwashing relacional» (Fevereiro de 2026).



